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quinta-feira, 18 de abril de 2013

AH... SE TODAS FOSSEM SANDRA!


Romance de Diedra Roiz e Jenny Hunter.
Postado de 18 de Abril a Agosto de 2013.
Sunny por Jennyfer Hunter
Camila por Diedra Roiz




PLÁGIO É CRIME! NÃO COPIE, CRIE! 
Este texto não caiu do céu, é resultado de MUITO trabalho.
Todos os direitos reservados. 

Proibida a reprodução, adaptação ou disponibilização para download,  no todo ou em parte, através de quaisquer meios, sem a autorização da autora. 
Lei de Direitos Autorais nº. 9.610/98



Lembrando que... Copiar a história apenas trocando o nome das personagens não é fanfiction nem adaptação, é plágio. Por favor, não façam isso, ok?





SINOPSE

O amor surge de forma inexplicável, onde menos se espera, entre as pessoas menos prováveis.
Ou como disse Shakespeare: “O AMOR É COMO A SOMBRA: FOGE DE QUEM O SEGUE E QUEM DELE FOGE... PERSEGUE!”





MÚSICAS QUE INSPIRARAM A HISTÓRIA:





OBSERVAÇÃO SUPER IMPORTANTE:  
Este é um "conto musical", recomenda-se ouvir as músicas indicadas para melhor aproveitamento da leitura dos capítulos.




 .

CAPÍTULO 01


Músicas que embalam o capítulo: 

Não me deixe nunca mais: 



Camila - Diedra Roiz

Saí do banho inteiramente nua, enxugando os meus cabelos com uma toalha. Assim que entrei no quarto avistei Sandra na frente do armário aberto, apenas de sutiã e calcinha, segurando três vestidos diferentes. Assim que me viu perguntou:
- Qual você prefere? Esse? Esse?
Meu sorriso não foi apenas divertido...
“Linda! Tão linda a minha mulher! Gostosa e... Absurdamente indecisa!” – pensei.
Nem percebeu meu olhar indiferente aos pedaços de pano que ela me mostrava:
- Ou esse?
Toda a minha atenção estava voltada para... Onde mais? Ela.
- Tanto faz, amor. Você fica maravilhosa com todos... Mas melhor ainda sem eles...
Avançando com uma rapidez que Sandra não esperava, trouxe-a para os meus braços, minhas mãos puxando-a pela bundinha perfeita, colando nossos corpos enquanto minha boca já se deleitava no pescoço, subindo em direção ao ouvido com a certeza de que causaria a reação de sempre. Ela não me decepcionou, contorceu-se em uma série de arrepios que me deixaram ainda com mais vontade...
- Ai... – foi mais uma exclamação dengosa de prazer do que um protesto.
Não fez o mínimo movimento para desvencilhar-se. Muito pelo contrário.  Eu não vi, mas soube que Sandra havia deixado os vestidos caírem no chão quando as mãos dela surgiram em minhas costas, uma delas acariciando toda a extensão e subindo até tocar em minha nuca, coisa que ela sabia ser infalível...
- Uhm... – foi a minha vez de me arrepiar e gemer, enquanto tomava os lábios dela com os meus. O simples contato causou uma sensação de prazer incontrolável:
- Deliciosa... – sussurrei de encontro à boca que se abriu para melhor me receber. Só deixei de sugar os lábios de Sandra para enfiar a língua entre eles.
Ela suspirou antes de sussurrar roucamente:
- Vamos nos atrasar... - minha resposta foi conduzi-la até à cama, onde a fiz se deitar e praticamente pulei em cima dela, que riu, evidentemente feliz com a minha voracidade: - Ah... Você é tarada, Câmi...
A resposta estava em minhas mãos que, depois de abrirem e tirarem o sutiã, também a livraram rapidamente da calcinha:
- Só por você, meu bem...
E na língua que desceu com pressa, desenhando uma trajetória incontrolavelmente ardente na pele embaixo da minha... Rumo a um destino certo...
- Ai... Isso, meu amor... Assim... Ahn...
Foi a primeira de muitas frases, gemidos e sussurros... Que pouco a pouco foram se tornando mais e mais desconexos... Durante todo o tempo que a minha boca e os meus dedos permaneceram entre as pernas dela...


Acordei num misto de espasmo e grito, sentando na cama sem que a sensação de afogamento passasse. Passei as mãos nos cabelos ensopados de suor, tentando fazer com que a minha respiração acelerada voltasse ao normal. Acendi o abajur na mesinha de cabeceira e olhei para o lugar vazio ao meu lado na cama como se quisesse me certificar daquilo que há mais de dois anos eu já sabia, mas ainda não acreditava nem conseguia me conformar: Sandra não estava mais lá. 


- Camila... Me ouve... Você não pode continuar assim pra sempre!
O desespero na voz de Flávia não me comoveu:
- Se foi pra isso que você me ligou tá perdendo seu tempo.
Ela suspirou profundamente antes de afinal dizer:
- Seja razoável. Só um pouquinho, uhn?
Dessa vez fui eu que suspirei:
- Por que isso agora?
Indubitavelmente, Flávia estava longe, muito longe de ser perfeita. Mas era minha melhor e mais querida amiga desde os tempos da faculdade. E a única que não fingia que estava tudo bem:
- Porque eu não aguento mais te ver desse jeito.
O amor indiscutível na voz dela me fez hesitar, mas não mudar de ideia:
- Eu sei que você tá pensando que essa viagem pode ser um ritual de passagem, uma expurgação ou sei lá o que, mas de verdade? Pra mim vai ser apenas um grande sofrimento. É muito difícil estar com vocês, como era antes, e... Sem ela. Compreende?
Foi incontrolável: na mesma hora as lágrimas escorreram. Peguei a caixa de lenços de papel que estava sempre à mão na primeira gaveta da minha mesa - já que precisava dela sempre – e enxuguei o rosto em vão. Tinha acabado de puxar o segundo lenço quando Flávia deixou claro que sabia exatamente o que eu estava fazendo:
- Pelo amor de Deus, Camila! Para com isso! Nada mais é como antes, será que você não vê? Eu e Lena nos separamos, ela vai com a nova mulher, que até hoje você nem se deu ao trabalho de conhecer! As coisas mudam, as pessoas caminham... Pra frente! A única que continua parada no mesmo lugar é você!
A raiva veio... Dura, áspera, violenta. Mas eu a controlei. Com a destreza de quem, naqueles últimos anos, tinha sido obrigada a fazê-lo inúmeras vezes. Falei baixo, entre os dentes:
- É a mulher que eu amo. Vou estar aqui esperando, até ela voltar.
Era tão difícil assim entender? Ou se colocar no meu lugar? Com certeza! Pois se até para mim parecia surreal demais, imagine para os outros... Como tentar sequer começar a explicar? Impossível! Só me restava o silêncio. E a questão que martelava minha mente diversas vezes todos os dias: “Por quê? Por quê?”
Cruel ironia do destino, talvez.
- Já se passaram mais de dois anos, Camila. A Sandra não vai voltar.
De novo, a ladainha de sempre, que eu já estava cansada de ouvir das pessoas mais diferentes: policiais, psicólogos, psiquiatras, familiares, amigos e até desconhecidos:
“Não havia corpo, nem sangue, porém... As malas, a bolsa dela com os documentos e objetos pessoais... Estava tudo dentro do carro abandonado no meio da estrada... A porta do motorista aberta...”
Mas não havia nada que pudesse me fazer acreditar que ela estivesse... Nem em pensamentos eu seria capaz de completar a frase.  Contestaria até que me provassem o contrário:
- Você não sabe. Ninguém pode afirmar com certeza.
Houve uma pausa, onde Flávia pareceu pesar se deveria mesmo dizer o que acabou dizendo:
- Não acha que se a Sandra estivesse viva já teria dado algum sinal de vida?
As palavras subiram... Do meu útero talvez... Foram vomitadas, cuspidas de um jeito vociferado que nada mais era que... A expressão do meu real desespero:
- Eu não sei!
O choro que se seguiu foi convulsivo. Imediatamente, Flávia falou:
- Tô indo praí.
E desligou. Sem me dar chance de implorar para que ela me deixasse... Sozinha. Em paz era impossível. Pelo menos enquanto eu não soubesse o que havia acontecido.


Uma semana depois, mesmo sem conseguir explicar ao certo como, me vi dentro do carro de Flávia - ela dirigindo comigo ao lado e Lena com a atual mulher atrás – saindo de Blumenau a caminho de Porto Belo, mais exatamente para o apartamento de Flávia na Praia de Bombas. Não me sentiria mais miserável se estivesse indo para a cadeira elétrica...
- Será que a “co pilota” pode botar uma música?
Por sorte os óculos escuros que nós duas usávamos impediu que Flávia fosse fulminada pelo olhar que eu lhe lancei. Absolutamente imune à minha óbvia falta de bom humor, ela acrescentou:
- Aí no porta luvas tem um monte de CDs.
Pelo bem de todas e felicidade geral da viagem, peguei um dos porta CDs exatamente como ela me pediu. Mas Flávia era Flávia – sempre! – claro que sabia que eu não estava com a menor vontade de escolher:
- Bota o “Bailão do Ruivão”!
Do banco de trás, Lena e Mônica aquiesceram:
- Esse é ótimo!
- Perfeito!
Não seria eu a estraga prazer... Enfiei o CD e a primeira faixa já entrou rasgando: “Venus”, fazendo o carro balançar com o tamanho da animação – para mim muito mais que exagerada - das três.
- Vamos abrir os trabalhos? – Lena perguntou, já com a tampa da caixa térmica que tinha nos pés levantada e colocando uma latinha de Bohemia na minha mão antes que eu pudesse responder.
Ouvi o ruído das duas latas que ela e Mônica abriram lá atrás, mas fiquei olhando para a minha, incapaz de fazer o mesmo. Não queria beber, por que... Nada de bom poderia acontecer se eu perdesse o pouco controle que eu ainda achava que tinha sobre mim mesma...
- Bebe, sua filha da puta! Por mim, hein? – Flávia falou pousando a mão no meu ombro, com o carinho rude que era a cara dela. Sem que eu precisasse falar nada completou, deixando claro que estava acompanhando os meus pensamentos: - Relaxa. Eu tomo conta de você.
Não seria a primeira vez...
- Vamos lá, Camila! Você tá entre amigas, né? – Lena enfiou a cara entre os dois bancos e me deu um beijo estalado na bochecha.
Devolvi o sorriso dela ao concordar:
- Ok.


Quase duas horas e incontáveis latinhas depois - eu já estava cantando e dançando com elas, aliviada pela alegria artificial que a cerveja me proporcionava – chegamos.
Carregamos tudo para o apartamento. Flávia indicou para Lena e Mônica:
- Vocês ficam nesse. 
O quarto onde eu e Sandra sempre ficávamos... Lena dormia no quarto de Flávia, com Flávia, obviamente... Antes de... Antes de quê? Ri sem saber ao certo o porquê... 
- Eita, Camila! Você tá bem?
Segui atrás dela puxando minha mala:
- Sei lá. Me diz você...
Flávia não respondeu. Entrou no outro quarto, soltou a própria mala e atirou a frasqueira em cima da cama de casal. Isso me fez perguntar:
- Tá. E eu?
Ela me olhou como se a pergunta fosse a mais absurda do mundo:
- Aqui comigo, onde mais?
Na mesma hora recusei:
- Sério, Flávia... Eu não quero atrapalhar... Mesmo!
Minha reação não era, nem de longe, por pensar que poderia acontecer algo entre nós. Já tínhamos dormido na mesma cama muitas vezes antes, nada a ver. Mas Flávia era e sempre tinha sido conhecida e assumidamente “pegadora” e, agora que estava solteira, não seria eu a empatá-la.
Ela gargalhou, como se pudesse ler meus pensamentos:
- Meu amor, esse findi eu quero só você!
Fui eu que ri dessa vez:
- Até parece, né? Te conheço!
Incapaz de negar, Flávia apenas abriu os braços em desistência:
- Tá... Eu sei que o meu passado me condena, mas... Não vou te tirar desse quarto! Prometo!
Ela cruzou os dedos e os beijou solenemente. Eu não me dei por satisfeita:
- Isso é o maior dos absurdos! E se você ficar com alguém?
Com um sorriso absolutamente malicioso, Flávia piscou:
- Não se preocupa... Sabe que sempre dou o meu jeito... Agora vem comigo, vem... Que a praia nos espera! – dizendo isso, Flávia me guiou pelo corredor. Estávamos de biquíni por baixo, Lena e Mônica tinham ido colocar os delas. Esperamos alguns minutos antes de Flávia finalmente bater na porta e perguntar:
- E aí, vocês vem ou não vem?
A voz de Lena soou inconfundivelmente ofegante. Era óbvio o que as duas estavam fazendo lá dentro:
- Vão na frente... Depois nós encontramos vocês.
Com um suspiro, Flávia virou-se para mim:
- Eu sabia!
Deu de ombros e riu, com uma tranquilidade que me fez questionar:
- Você não se...?
Nem precisei completar:
- Nós sempre fomos amigas. Não é porque nos separamos que vamos deixar de ser. Além disso, eu gosto da Mônica. Ela é muito melhor pra Lena do que eu. Entende?
Sacudi a cabeça negativamente:
- Não muito, mas... Se tratando de você... O que há pra entender?
Esquivei do tapa que ela ameaçou me dar, apenas para esbarrar na TV:
- Viu, só? O castigo vem a cavalo! Bem feito!
Rimos juntas, como há muito tempo não fazíamos... E aquilo foi como um bálsamo... Reconfortante mesmo... E ao mesmo tempo terrível porque... Me sentir bem parecia uma forma de traição... Meus olhos se encheram de lágrimas e eu não consegui contê-las...
- Acho que eu não deveria ter vindo... Vou acabar estragando o feriadão de vocês...
Só percebi que Flávia havia se aproximado quando ela me envolveu com os braços:
- Deixa de besteira, viu? Não teria a menor graça sem você.
Enxuguei com as pontas dos dedos o colo dela que eu havia molhado sem querer:
- Só vou atrapalhar... Eu sei...
A força com que ela me abraçou contrastou com o tom de voz que usou... Completamente... Meigo, doce, suave... Quase ao extremo:
- Camila, Camila... Você só atrapalha a si mesma. Que diabo de cabecinha dura! – para ilustrar o que dizia, deu três batidinhas de leve com os nós dos dedos. Pareceu voltar ao normal depois do sorriso que esbocei: - Agora chega! Vamos, antes que eu comece a chorar também!


Só alugamos um guarda sol e duas cadeiras, pois segundo Flávia:
- Sabe-se lá se aquelas duas vão mesmo aparecer...
A primeira coisa que fez assim que se livrou da canga foi chamar:
- Ei, Ive! Ive!
Eu já havia tirado minha saída de praia e estava aproveitando a brisa do mar confortavelmente sentada em uma das cadeiras. Tinha passado protetor solar antes de sairmos, enquanto Flávia “recarregava” a caixa térmica com gelo e cerveja. Parei de admirar o mar esverdeado e transparente para observar a loira super bronzeada que saiu do bar atrás de nós e se aproximou rindo e de braços abertos:
- Flavinha! – abraçaram-se enquanto ela dizia de um jeito bastante íntimo: - Sumida, hein?
Levantando os ombros e inclinando a cabeça um pouco de lado com um sorriso, Flávia justificou:
 - Trabalhando muito, sabe como é...
- Fazer o que, né? - a mulher disse antes de ir buscar as duas cervejas que pedimos.
Flávia não a acompanhou com o olhar. Virou-se pra mim como se nada tivesse acontecido:
- Só tem Skol... Que se dane! Só duas latinhas pra dar um brilho até as nossas ficarem no ponto...
Eu não me aguentei:
- Você e ela...?
A resposta veio estranhamente baixa, como se Flávia não quisesse ser ouvida por mais ninguém:
- Só uma vez. Mas foi antes dela casar com a Lu e as duas abrirem o bar, ok? – ela parou um pouco, franziu a testa e indagou: - Como...?
Desnecessário completar... Outra vez. Foi rindo que afirmei o óbvio:
- Te conheço...
Depois de me mostrar o dedo médio, Flávia caminhou em direção à água:
- Já volto!
Me recostei e fiquei observando ela entrar mar adentro e mergulhar. Inconscientemente olhei para o lado... Apenas para que o sorriso e o comentário que eu tinha nos lábios morressem ao se depararem com a cadeira vazia.
Não permiti que o sentimento me tomasse, ri de mim mesma, lutando contra ele enquanto enxugava as lágrimas que escaparam.
- A água tá ótima! – Flávia parou em pé na minha frente para se secar no sol. – E a nossa cerveja?
Abri a caixa térmica e confirmei o que já desconfiava:
- Trincando!
Ela não pediu, ordenou:
- Então passa pra cá!
Peguei uma pra ela e outra pra mim. Ainda estávamos ali, bebendo, jogando conversa fora e aproveitando a praia, quando Lena e Mônica chegaram, alguns minutos depois. Rapidamente, Ive providenciou mais um guarda sol e duas cadeiras.
Mônica perguntou:
- Quanto é?
E Ive respondeu com um sorriso muito mais que simpático:
- Podem acertar quando forem embora. Fiquem à vontade!
De onde eu estava, vi perfeitamente quando Lena levantou uma das sobrancelhas e olhou para Ive com uma expressão nada amigável.
- Traz o cardápio pra gente, linda? – Flávia pediu, absolutamente rápida.
Assim que ela se afastou, Mônica intimou:
- Amor, vamos na água.
Lena a seguiu até o mar, onde pararam uma de frente para a outra, imersas até a cintura. Pelos gestos e postura corporal das duas era óbvio que estavam tendo uma conversinha... Não muito cordial. O fato também não passou despercebido por Flávia:
- Será que a Lena nunca vai aprender?
Disse e se sentou na cadeira ao meu lado.
- Digamos que... Você fez a auto confiança dela ficar um tanto quanto... Baixa. Né?
Terminou a latinha de cerveja que estava bebendo e colocou dentro de um saco plástico enquanto respondia:
- Eu? Mas eu nunca fiz nada! Você sabe melhor do que ninguém.
Eu tive que rir:
- Concretamente não, mas...
Ela não me deixou terminar a frase:
- Mas...?
Estendi a mão e ela me passou a sacola-lixo, onde coloquei minha própria lata:
- Ah, Flávia... Fala sério, né? As mulheres davam em cima e você nunca cortava. Muito pelo contrário, até incentivava...
Depois de um suspiro e uma pequena pausa, ela deu de ombros:
- Tá. Vamos dizer que eu tenha errado e...  Exatamente por isso eu e Lena estamos separadas... É passado. Morto e enterrado. O que a Mônica fez? Me fala?
Olhei diretamente para Flávia ao dizer:
- Nada. Sobrou pra coitada aturar a mulher que você deixou traumatizada.
Mas ela não estava mais prestando atenção em mim. Acompanhei o olhar boquiaberto de Flávia... Fixo em uma morena maravilhosa que ondulava pela areia carregando pulseiras, colares e outros tipos de artesanatos. Veio em nossa direção e parou. Eu também não consegui desviar o olhar...
- Que lindo esse! Quanto é?
Só depois que ela perguntou percebi que Mônica tinha voltado.
- Quinze.
Respirei fundo e me forcei a olhar para baixo. Eu não queria... Não podia... Mas... Meus olhos não respondiam mais ao meu comando, subversivamente procuravam mais detalhes... A tornozeleira trançada com contas em diversos tons de amarelo que enfeitava a perna direita bem torneada...  A barra do vestidinho curto que não chegava nem na metade das coxas fartas... A cartucheira dupla de couro na cintura... As duas rodelas na altura dos seios indicando que, por baixo, o biquíni estava molhado... A tatuagem no braço esquerdo, subindo pelo ombro: pequenas rosas vermelhas com folhas verde escuras interligadas por um caule preto fino, cheio de espinhos... E os olhos... Que olhos! Claros... De uma tonalidade indecifrável... Fixos. Em mim. Ela também me avaliava...
- Não faz por doze? – Lena perguntou, fazendo com que o contato se rompesse e a morena e eu a olhássemos. - Só tenho isso trocado. - Lena tirou e mostrou as cédulas que tinha na carteira: duas de cinco, uma de dois e... Duas de cinquenta reais.
- Tenho troco. – a morena respondeu sorrindo e abrindo a bolsa direita da cartucheira.
- Tá. – Lena respondeu desistindo, finalmente, de pechinchar.
Negócio fechado e concluído, Lena presenteou Mônica com o colar. As duas se abraçaram, sussurrando uma no ouvido da outra. Algo que ninguém além das duas conseguiu escutar.
- Você faz tererê? – Flávia perguntou com seu maior e melhor sorriso, já de pé e ao lado da morena.
- Faço.
Antes que Flávia pudesse retrucar, Ive apareceu:
- Aaaaaah! Eu não acreditoooo! – veio correndo, deu um beijo estalado na bochecha da morena e a abraçou antes de gritar: - Lu, olha só quem tá aqui! Lu!
A mulher de cabelos curtinhos, que estava atendendo umas pessoas a duas barracas à nossa esquerda, virou-se apertando os olhos para enxergar melhor. Quando conseguiu, abriu um sorriso imenso e veio rapidamente até nós:
- Sâni? Caralhoooo! Sâniiii! Que saudade! – exclamou já agarrando a morena – Quando você chegou? Por que não ligou?
A morena correspondeu integralmente ao abraço:
- Anteontem de madrugada, mas... Tava morta de cansada. Ontem acabei dormindo o dia todo, só hoje consegui me recuperar...
O diálogo que se seguiu foi rápido:
- Como foi cair na estrada de novo?
- Demais!
- Três meses, né?
- É. Quase não voltei... Depois te conto...
- Passa aqui mais tarde?
Lu voltou para o bar assim que a outra assentiu:
- Combinado!
Antes de seguir a mulher, Ive piscou para a amiga e sussurrou – baixo, mas não o suficiente que eu não escutasse:
- Quero detalhes!
A morena então virou-se para Flávia:
- E o tererê, vai querer?
Flávia voltou a se aproximar:
- Quem sabe depois? – encarando a morena, perguntou num tom absolutamente sem disfarces: - Você vai voltar, não vai?
O sorriso da morena foi de uma simpatia bastante impessoal:
- Vou.
Isso não fez Flávia esmorecer, muito pelo contrário:
- Eu não vou sair daqui. – estendeu a mão: - Prazer... – mas só depois que a morena ofereceu a dela se apresentou: - Flávia.
Eu já a tinha visto fazer aquilo mais de um milhão de vezes. Manteve a mão da morena na dela e a olhou dentro dos olhos, com um sorriso cheio de charme. A diferença estava num único detalhe: a morena permaneceu imune. Soltou-se e sorriu de um jeito... Condescendente quase.
- Tá certo, Flávia. Então até mais!
Virou-se e começou a caminhar. Só conseguiu dar dois passos antes de Flávia chamar:
- Espera!
Sem voltar nem girar o corpo - apenas a cabeça, o suficiente para fitá-la, perguntou:
- Quê?
Não sei se foi claro. Eu conhecia Flávia bem demais, sabia que ela estava... Desconcertada:
- Não vai nem me dizer o seu nome?
A morena riu:
- Você já não sabe?
Flávia foi até a morena e colocou-se na frente dela:
- Não que não combine com você... – olhou-a de cima a baixo - Combina... E muito! – só então pareceu se tocar que a estava “secando” de forma descarada demais – Ah... Vai dizer que “Sunny” é seu nome verdadeiro?
A morena ficou séria:
- É como todo mundo me conhece.
Flávia persistiu num tom doce e suave:
- Mas não é o seu nome de verdade.
O sorriso da morena foi ácido:
- Depende o que você considera “verdade”.
O de Flávia aumentou. Ela adorava as que não eram “fáceis”...
- O nome que consta na sua certidão de nascimento, no seu CPF, na sua identidade...
“Touché!”
Conseguiu arrancar uma gargalhada divertida:
- Você é policial por acaso?
Respondeu com um orgulho inegável:
- Advogada.
Aí sim, a morena riu de fato:
- Tá explicado!
Aproveitando o clima bem humorado, Flávia insistiu uma vez mais:
- Me diz, vai...
A morena sorriu, jogou o cabelo ondulado para trás e se deu por vencida:
- Tá, eu vou matar a sua curiosidade. – fez uma pausa que pareceu durar a eternidade antes de finalmente falar: - Sandra.






postado originalmente em 18 de Abril de 2013 às 18:15

CAPÍTULO 02



Música que embala o capítulo = California Dreamin': 
https://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=qhZULM69DIw



Sunny - Jennyfer Hunter

Que pessoa insistente! Pensei em respondê-la agressivamente, sei lá... Deixá-la no vácuo. Mas a presença da amiga de olhar tristonho causou uma inibição desconhecida por mim até então. De repente pareceu que meu nome não lhe trazia boas recordações, pois no momento que ela ouviu-me dizer meu nome real ficou pálida, estatelada, imóvel. Tive vontade de voltar e perguntar se estava tudo bem. Porém, eu queria correr da advogada tarada o mais rápido que eu conseguisse. Com isso, virei e voltei a percorrer a praia por muito tempo.
A tarde se arrastou para passar. Será que foi porque queria muito ir à casa das meninas? Acho que não. Algo estranho tinha acontecido naquele momento em que parei na barraca daquelas turistas. Um arrepio intrigante, mascarado de prazer e desconhecimento. Sei que não foi pela advogada insistente, talvez tenha sido pela guria que me fitou com aqueles olhos dúbios. Estranho foi caminhar pela orla enquanto tentava decifrar o que aqueles olhos tentaram me dizer. Mas não consegui chegar a um significado. Tudo bem, eu tinha certeza de que voltaria a fitá-las mais de perto, pois sei que a advogada era amiga da Ive e da Lu.
Essas duas são minhas parceiras de longa data. Na verdade, conheci primeiro a Lu na Praça dos Pescadores, bem no centro de Porto Belo em uma ocasião inesquecível. Eu estava sentada em uma roda de amigos, esperando outros para sairmos. Enquanto alguns tocavam e cantavam, eu os acompanhava, e criava minhas miçangas. De repente parou uma mulher muito bonita ao meu lado, perguntando se estava a venda.
- Quanto custa?
- Oi? - Respondi sem entender o que ela tinha perguntado por conta do barulho.
- Essas pulseiras e tornozeleiras... Quanto é?
- Ah não... Não faço pra vender. Estou aprendendo ainda e...
- Que aprendendo que nada! Deveria ganhar dinheiro com isso. Você é muito boa... 
O adjetivo pareceu quase um elogio exacerbado. Meio sem jeito disse que nunca tinha pensado nisso. Então, Luciana se agachou para falar melhor comigo.
- Olha, sei que não nos conhecemos. Mas sinceramente, seria muito bom conhecer melhor esse seu talento. Tenho uns amigos que iriam adorar comprar seus produtos. Que tal?
Trocamos telefones e desde então passamos a conversar bastante. Tornamo-nos muito amigas. Saíamos juntas, curtíamos praias juntas e nos aventurávamos também... Juntas! Ela não ficava com os meninos bonitos da festa. Sempre dava toco neles. A desculpa era que não queria se envolver com ninguém. Tudo bem né? Até parece que eu já não tinha sacado qual era a dela! Só não tinha tocado no assunto ainda porque estava respeitando o tempo dela. Então, eu passei a produzir alguns acessórios para ela e passei a ganhar dinheiro sem ter que ficar andando e andando pelas praias da cidade, pois tudo o que eu produzia era vendido na barraca da Lu. Em uma das vezes que fui lá levar o material prontinho para a Lu vender, tive a confirmação de que ela era gay. Foi assim:
Tinha uma galera curtindo a praia, e uma guria linda foi até a barraca para pedir um saco plástico.
- Olá!
Ficamos mudas. Na verdade, a Lu ficou muda, imóvel, intacta.
- O... Oi. Pois não? - Respondeu com voz arfada e olhar concentrado na loira.
- E... Eu queria saber se você teria uma sacola que pudesse me emprestar? Esquecemos de trazer uma pra recolher o lixo.
- Claro que tenho.
Falou mas não se mexeu pra pegar. Eu que fui até freezer e peguei a sacola para a Lu. As duas ficaram ali se olhando, sem nada dizerem. Ah... Dava dó ter de descongelar aquela cena. Se eu fosse pintora, teria terminado de pintar um belo quadro de tamanho natural.
- Com licença estátuas! Aqui está sua sacola.
Entreguei o saco à Ive, que ergueu a mão direita e o pegou. Sequer olhou pra mim.
- Obrigada...
 - Lu... Pode me chamar de Lu.
- Ah sim, Lu. Obrigada mais uma vez.
Deu um passo para trás, antes de se virar e caminhar para frente.
Minha amiga continuou ali parada observando a loira se afastar lentamente. Quando ela voltou do seu mundo, soltou:

- É emprestado. Espero que me devolva.
Rimos muito juntas num misto de alivio e cumplicidade.
Não preciso nem contar no que deu, não é mesmo? Hoje elas estão casadas e não se desgrudam por e para nada.


Sabe... Eu queria encontrar alguém que me congelasse e derretesse meu coração assim. Mas eu não parava com ninguém. Ficava com uns carinhas aqui e ali, mas nada que me prendesse. Aliás, prender é algo que jamais alguém conseguiu fazer, de verdade. Sou um espírito livre. Gosto de conhecer lugares diferentes, pessoas interessantes e curtir a vida do meu jeito. Sempre que posso, coloco altas doses de coragem, curiosidade e determinação dentro da mochila, e sigo por ai.
E foi isso que fiz uns três meses atrás. Produzi intensamente material necessário para me render uma boa grana. Vendi todos nas barracas e com as verdinhas sai me aventurando por ai.  Acabei de voltar de uma viagem simplesmente única. Subi na minha XVS 950 na cor vinho, peguei a BR 116 e fui parar lá no Uruguai. Ah se aquelas calles pudieran hablar! Boas lembranças do mar de Punta Del Diablo, onde fiz algumas amizades com ingleses e franceses bem alternativos, assim como eu!
Conheci tantos lugares maravilhosos, sendo Colonia Del Sacramento, um dos meus preferidos. Fora os chicos calientes que me enamorei por lá. Posso dizer que foi bastante divertido.
Porém, aqui estou eu de volta. E pelo que estou sentindo boas coisas estão para acontecer. 


À tardinha Ive me ligou para perguntar se eu não iria voltar lá na barraca. Respondi que estava muito cansada e que por isso não iria passar lá. Iria para casa descansar um pouco. Ela continuou do outro lado da linha:
- A Flavinha e amigas estão saindo da praia agora... Então... Ela veio nos convidar para fazermos uma reuniãozinha hoje à noite lá. Vamos?
Festas não eram dispensadas facilmente por mim, mas estava mesmo um caco. Queria muito minha cama confortável e quente. Fiquei muda, pois não queria ser grosseira negando o convite. Tentei dar uma desculpa:
- Não acho que seja uma boa e...
- Ah vamos! Aliás, ela que pediu pra te chamar.
- Por isso mesmo Ive. Tu viu como ela é? Não quero ficar fazendo esforços para me esquivar de cantadinhas baratas.
- Ué Sunny, ela não pareceu interessante pelo menos pra dar uns beijos?
- Não.
Ela não. Pensei.
Fez-se um silencio... Cinco segundos que mais pareciam cinco minutos. Sabia que ela estava fofocando com a Lu.
- Perae que a Lu quer falar contigo.
Sabia!
- Ô maluca! Que história é essa de que você não quer ir hoje com a gente? Posso saber por quê?
Fiz sinal de impaciência. Essa mulher não ia me deixar quieta enquanto eu não dissesse sim. Mesmo assim tentei:
- Porque são suas amigas, Lu... Não tem nada a v...
- Ah mais vai sim senhora! Olha só, são cinco e dezessete agora. Por volta das oito horas vou te ligar pra gente se encontrar hein?! E nem pense em desligar seu celular, pois sei o caminho da sua casa, sua safada! 
É não deu. Ela mandou beijos e desligou.
Mas que mania feia que ela tinha de desligar na minha cara. Isso é se chama coação!!!


Acordei assustada com o meu celular tocando... Já ia dar quase sete da noite!
- Mulher, onde você está? - Fala uma voz impaciente do outro lado da linha.
- Em casa.  Que foi? Aconteceu alguma coisa? - Perguntei pra Lu ainda com aquela voz de quem está bocejando enquanto tentava recuperar a consciência.
- O que foi? O que foi, Sunny? Tu esqueceu da reuniãozinha lá na casa da Flávia?
- Hã..? Ah é.
Tinha esquecido sim. E o que ela tinha que me lembrar? Que coisa!
Na verdade, não tinha. Eu não queria era ir mesmo. Mas tenho que fazer a social. Fazer o que?  Tinha pensado em dizer que não iria mais, pois estava muito cansada, mas de repente vi que poderia ser legal.
- Me dá meia hora tá ? Já, já to chegando ai.
- Ok. Meia hora. Se não aparecer, a gente vai ai te buscar. E tenho dito!
Às vezes tenho pena da Ive. Essa Lu era muito mandona.


Em exatos trinta minutos eu estava parando com a minha moto na porta da casa delas e buzinando. Assim que me viu, Ive soltou:
- Hum... Olha como ela tá gatona! Posso saber pra quem é essa produção toda?
Sorri e apenas disse:
- Pra mim, oras.
- Acho que a advogada terá muito que analisar ai....
- Fala sério, Lu!
- Fala sério o quê, minha querida? Você não viu como ela te secou hoje?
- Ela e todas as outras, aliás. - Completou Ive.
- Nada a ver. Ela é atirada. Tu sabes que eu não gosto. E além do mais, só beijo mulheres quando já estou pirada nas festinhas. E hoje eu vou me comportar!
- Aham. Você? Duvido!
As duas falaram quase que juntas!


A moça pra quem eu tinha vendido o colar hoje de manhã foi quem abriu a porta. Foi super receptiva e educada enquanto entrávamos. Primeiro Ive, Lu e em seguida eu.
Flávia saiu da cozinha com um prato de salgados nas mãos e abriu um largo sorriso ao me ver.
- Olha só quem veio! Que bom que aceitou o convite. A noite vai ser muito boa.
Engoli em seco. Isso foi uma direta? Não tenho dúvidas. Olhei em volta e percebi que estava faltando uma pessoa. Não eram quatro hoje mais cedo na barraca? Não estavam todas lá. Cadê a outra? Como que se tivesse lendo minha mente, Flávia falou:
- Acabou de sair do banho. Está acabando de se arrumar. Já, já ela vem se juntar a nós.
Eu sorri tentando ser indiferente a vontade de fitar aqueles olhos novamente.


Ficamos ali tentando engrenar uma conversa longa, com aquelas perguntinhas soltas do tipo: “E ai, quais as novidades? O que contam de bom? E você?”
Flávia quis saber como andava a vida do casalzinho vinte que ficaram lá trocando olhares apaixonados... Aliás, Ive e Lu, Monica e Lena... Alguém estava sobrando. Não queria nem pensar na possibilidade de ser eu. Antes de dar tempo para que a advogada perguntasse da minha vida sentimental, perguntei onde era o banheiro.
Flávia que estava sentada ao meu lado, quase que grudada, só faltou sussurrar em meu ouvido direito:
- Corredor à direita.
Cruzes! Essa frase não tem nada de sensual. Nem se ela tivesse voz de locutora de aeroporto teria surtido efeito.  Imagina só a mulher falando: “Senhoras e Senhores, para irem ao toalete, favor pegar o Corredor... À direitaaaa...”
Não... Não mesmo!
Pedi licença e fui. Sabe quando você sente que estão te avaliando? Pois é. Essas mulheres estão terríveis hoje em dia, viu?


Assim que sai do banheiro, meu coração quase que parou. Dei de cara com ela... Branca, alta, esbelta... Sensual com aqueles curtos cabelos negros e ainda por cima molhados. Sempre achei um charme mulheres de cabelos curtos, com a nuca à mostra...  Aqueles olhos de turmalina negra me fitaram lentamente. Ela sorriu de soslaio e sem soltar um som sequer me deu passagem para ir na frente dela.
Mais uma vez a sensação de estar sendo comida por trás. Sem trocadilhos, por favor!


Quando aparecemos, as meninas lançaram algumas interjeições das quais nem prestei muita atenção. Eu acho que estava mesmo era hipnotizada por aquela guria. Coisa da qual não conseguia entender. Eu já tinha ficado com muitas meninas, mas nunca chegado às vias de fato. Mas ela... Ela tinha despertado um tipo de interesse subversivo, intrigante, libertino. Isso mexia demais com os meus brios. E me fez me perguntar como seria sentir aquela mulher?
- Sunny? Sunny!!!!
Todas estavam me olhando quando eu saí do transe.
- Oi? - Respondi e busquei o olhar da Lu.
- Mulher, estávamos aqui há séculos esperando sua resposta e nada. Tava onde?
- Ah... No meu mundo...
Continuaram me olhando e com certeza tentando saber em quê eu estava pensando...
- Ih gente! O que vocês perguntaram?
- Perguntamos sobre como foi sua aventura no Uruguai? Ive nos contou que foi de mochileira pra lá. - Perguntou a advogada intrometida e curiosa.
- Ah tá... Eu gosto de viajar assim... Quando canso de um lugar, saio um pouco para revitalizar as energias e depois volto. Sempre volto.
Camila abaixou a cabeça assim que falei. Percebi que tinha algo de estranho na minha frase. Então Mônica retorceu um pouco da conversa, mudando o foco para a minha viagem.
- Mas e como você foi parar lá? Foi de carona?
- Não... Fui na minha moto.
- É nova, meninas. É o xodozinho dela. Tem até nome a bicha.
Curtiu com a minha cara a Lu.
- Ah é? E como se chama? - Perguntou Flávia.
- Midnight. - Respondi.
Atraentemente, Camila soltou uma risada e perguntou:
- Perae! É nome... Nome mesmo do tipo... Apelido ou é uma marca?
Opa! Aquele comentário me chamou muito minha atenção. Acho que tinha encontrado alguém que sabia do que eu estava falando. Olhei pra ela e respondi sem piscar:
- É uma XVS 950. Vinho.
Ela sorriu...
– Acho linda.
- É sim...
- Eu sempre tive vontade de ter uma... Mas Sandr...- Fez uma pausa... Os olhos marejaram... E continuou: - Deixa pra lá.
- Quem? -  Não entendi.
- Com licença...
Ela levantou e foi para a cozinha. Flávia foi logo em seguida.


Quando ia perguntar o que tinha acontecido, Monica falou rapidinho:
- Deixa eu te explicar rapidamente... Camila perdeu a esposa em uma viagem. E isso tem mais de dois anos.

Eu fiquei calada... Internalizando e tentando reproduzir a dor que ela devia sentir. Não conseguia saber o quanto devia ser difícil para ela...
Sabia que tinha dado uma mancada. Mas não era culpa minha. Puxa, eu não tinha conhecimento disso. Sabendo disso, não ia ficar ali sentada esperando ela voltar. Pedi licença, levantei e fui até a cozinha.
Presenciei Flávia conversando com Camila, que estava ainda de costas para a amiga, na busca de evitar ser olhada naquele estado.
- Camila... Ela não tinha como saber... Eu sei como deve ser complicado pra você estar entre amigos e acabar lembrando dela...
- Acabar lembrando? Eu simplesmente não a esqueço... Eu não consigo Flávia... Não consigo. Você viu? Tudo me faz lembrar a Sandra. Meu Deus, tudo!
Levou as mãos à cabeça como sinal de desespero.
Flávia a abraçou por trás tentando confortá-la o máximo que podia... Segurou-a pela cintura enquanto a conduzia para virar e dar-lhe um abraço. Ela foi abraçada pela amiga que acrescentou:
- Você está se cobrando demais, minha amiga. Ela não sabia da história.
- Não sabia... Mas a essa altura já devem ter contado...
- Sim... Contaram.
Falei ao mesmo tempo que o rompimento dos corpos acontecia.
Ela virou-se de costas pra mim no intuito de esconder o choro.
Flávia beijou a nuca da Camila e fez sinal pra eu ficar enquanto ela saia.


Cheguei perto... Parei atrás dela... Senti o aroma que vinha de seus cabelos ainda um pouco molhados...  Pensei no que falar... Nada vinha... Sabia que tinha dito algo que a tinha machucado muito.
Respirei fundo...
Toquei em seu ombro esquerdo... E falei:
- Hey... Camila...
Ela não se mexeu...
- Camila, por favor... - Pedi mais uma vez.
Ela hesitou mais um pouco, mas virou-se para mim lentamente. Os olhos mirando o chão. Segurei seu queixo suavemente e conduzi seu rosto até que ela me olhasse...
Ficamos a um pouco mais de dez centímetros uma da outra...
Ela me olhou nos olhos e depois para minha boca...
Eu a correspondia...
Sequei uma de suas lágrimas... E falei:
- Sinto muito. Deixa eu me redimir?
Sorri pra ela... Que permaneceu me olhando, me analisando...
- Hein?
Insisti:
- Me dá uma chance. - Pedi mais uma vez.
- O que você tem em mente?
Perguntou com coragem... Num tom desafiador.
Sorri de volta, e disse:
- Vem comigo.


Puxei-a pelas mãos conduzindo-a até a porta do apartamento... As meninas, que estavam na varanda, conversando baixinho como  se quisessem nos esconder os comentários, nos olharam com espanto... Antes que alguém perguntasse, eu avisei que iria lá fora com a Camila para conversarmos... Saímos sem olhar para trás.


Aquelas mãos entrelaçadas em minha cintura, aquele corpo colado em minhas costas despertavam em mim sensações únicas... Quando a sentia insegura era o momento certo de conduzi-la a me apertar ainda mais forte. Percebi que meu gesto lhe proporcionava segurança...
Ela se ajustava ao meu corpo a cada curva feita... Podia sentir seu arrepios causados pelo vento gelado que confrontavam aquele rosto... Nada falamos... Não era necessário. Apenas sentíamos o que o momento queria nos proporcionar de mais íntimo, único, particular.
Passeei com aquela mulher por vários caminhos da cidade... Mostrei Zimbros, Quatro Ilhas, Bombas, Bombinhas e Recanto dos Padres... Nas vistas mais belas, eu parava de frente ao mar, mas não descíamos da moto. Apenas a deixava admirar as ondas e ouvir o som do duelo entre as águas e a areia... Era lindo vê-la sorrir quando admirava a paisagem... Nunca havia tido aquela sensação que enaltecia e acalentava meu peito, num misto de medo e curiosidade, de quero mais... O que estava acontecendo? Seja lá o que for isso, sei que é bom. E queria sentir mais... Muito mais.
Segurei as mãos de Camila e as conduzi até a altura do meu peito...
- Aqui está tão bom...
Ela disse.
Apertei sua mão em resposta consentida.
- Não queria voltar... De verdade. Mas estou com frio.
Sabia que não era desculpa para ela ir embora. Até porque ficamos mais de duas horas andando pela cidade... Sem trocarmos palavras, sem conversarmos, como havíamos dito às meninas... Estava mesmo frio...
- Tudo bem... Segura assim...
Pedi para ela me abraçar com força enquanto andava lentamente com a moto, andando pela extensão da Avenida governador Celso Ramos... Eu podia sentir sua cabeça deitada em meu ombro direito enquanto ela apreciava o mar... Não queria que aquele passeio terminasse... Não queria me separar dela... E por isso fui o mais devagar que pude... Até que paramos enfrente ao apartamento da Flávia.

Ainda em cima da moto, dei a mão a ela para que pudesse descer enquanto a admirava mais um pouco. Ao desligar e descer da moto, Camila pegou nas minhas mãos e disse:
- Foi maravilhoso!  Muito obrigada...
Sorriu...
Retribui à mais perfeita pintura facial dela, respondendo:
- Eu que agradeço por você ter confiado em mim.
Ficamos nos olhando ainda de mãos dadas... Por quanto tempo? Não sei! Parecia eterno. Até que as meninas apareceram na porta, já se despedindo para irem embora.

O rompimento das mãos não foi brusco... foi selado de cumplicidade e ternura... como  se fosse um pedido para que aquele momento não acabasse, para que não nos separássemos...
- Tudo bem. Vai lá...
Falei.
Ela se aproximou para logo em seguida me abraçar, ação geradora de todo os tipos de arrepios em meu corpo... Olhando-me... Se juntou à Flávia, Monica e Lena...
Eu? Mandei beijos para elas e disse que nos veríamos na praia.
Ive entrou no carro lançando-me um sorriso cheio de significado, enquanto eu subia na moto e Lu vinha em minha direção...
- Amanhã eu quero saber de tudo! Agora vai... Vai sonhar!
Me deu um beijo e entrou no carro.
Busquei o olhar da Camila mais uma vez... Sorri... Liguei a moto... Acelerei e segui com o pensamento nela.
  



postado originalmente em 24 de Abril de 2013 às 18:00
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CAPÍTULO 03






Música que embala o capítulo:




Camila - Diedra Roiz

- E aí?

Olhei para Flávia tentando fingir que não tinha entendido:

- E aí, o quê?

Ela riu:

- Não se faz de boba, Camila... Quero saber detalhes, anda! Pode ir contando tudinho!

Meu sorriso foi condescendente e... Indiscutivelmente triste:

- Não houve nada.

Nem assim ela acreditou em mim:

- Ah, é!

Deixei escapar um longo suspiro:

- Andamos de moto, só isso.

Flávia insistiu:

- Vocês ficaram horas fora, só as duas, sozinhas... Ah, vamos lá... Como não houve nada? A guria tá visivelmente interessada em ti!

Foi a minha vez de rir:

- Ela tá é visivelmente com pena, isso sim!

Flávia piscou e inclinou a cabeça me analisando:

- Você tá brincando, né? - Não me deixou responder: - O jeito que ela te olha...

Imediatamente me defendi:

- Viagem sua!

- E é recíproco!

A conversa tinha ido longe demais e eu já sabia onde acabaria. Movida única e exclusivamente pelo instinto dei as costas, pronta para fugir dali. Mas Flávia não permitiu.  Agarrou o meu braço e me virou para ela, de forma quase agressiva:

- Camila, olha pra mim! Aqui, bem dentro dos meus olhos e fala que não está interessada na Sunny! Ãh? Vamos lá! Anda! Diz! – Abri e fechei os lábios várias vezes, buscando em vão a negação que não consegui emitir. - Ela mexe contigo! Admita! - Tentei inutilmente me soltar. Flávia me obrigou a ouvir. Usou um tom de voz carinhoso e suave, como se fala a uma criança: - Camila, Camila... Isso é muito bom! É positivo! Você precisa seguir com a sua vida!

Não era a primeira vez que eu escutava aquilo. Milhares de vezes, de diversas formas, várias pessoas já haviam dito. No entanto, a repetição não tinha o poder de fazer com que as palavras fizessem sentido. Racionalmente sim. Mas a razão... Era a mais insana das mentiras. Não significava nada. Nem alterava nada. Era incapaz de me fazer trair o que eu realmente sentia.

- Que vida? A que me deixou só aquele carro vazio? Mesmo se eu quisesse... Eu não teria como prosseguir. Não sem saber...

Ela foi dura. Ríspida:

- Quer saber? Quer ter a certeza? Então tenha! A Sandra não está viva! Se estiver, dá na mesma, é como se tivesse morrido! Não importa o que houve, Camila. Acabou. É passado. Por mais que você se cerque de desculpas pra não encarar isso.

As lágrimas escorreram livremente pelo meu rosto, salgando meus lábios retorcidos num sorriso obscuro e dolorido:

- Eu encaro. Todos os dias. É a minha realidade, a minha vida.  





Naquela noite eu fiquei deitada na cama, olhando para o nada, com o braço de Flávia ao redor de minha cintura, pensando naquele passeio de moto inesquecível... A lembrança me causando um conforto que me fazia sentir um desprazer quase físico... E a dor que esse desprazer causava me proporcionava uma estranha forma de alívio... Essa dualidade de sentimentos já se tornara habitual em minha vida. Como se eu não conseguisse nunca uma reação única, as emoções e sensações vinham em cadeia, num círculo vicioso incontrolável em que tudo que era bom se tornava negativo e vice versa. E isso era... Pior que cansativo... Como se sufocasse, sem jamais conseguir respirar de forma concreta, por mais que enchesse os pulmões de ar... Estavam sempre vazios...

A luz do sol já tinha surgido atrás das persianas quando finalmente meu corpo foi vencido pelo cansaço. Acordei sozinha no quarto, com a sensação de ter dormido apenas alguns minutos. Sentei na cama bocejando, calcei as Havaianas, abri a porta e parei assim que ouvi a conversa que vinha da sala ou da cozinha:

- Não acho que isso resolva, Lena. Afinal, ela ficou dopada durante os primeiros quatro meses e serviu pra quê?

- Tá, eu não sei. Mas é óbvio que ela não tá bem.

- Você realmente não faz ideia, né? A Camila tá ótima perto de como já esteve!

Com o rosto virado para cima, fechei os olhos e apelei mentalmente para qualquer tipo de força superior que pudesse haver... Se houvesse:

“Ah, não... Não! Por favor!”

Depois de tudo, acreditar na “bondade divina” era difícil, na verdade impossível.

“Por que? Por que?”

Eu morreria questionando. O ressentimento era o meu sentimento maior, incapacitava qualquer tipo de aceitação, resignação ou algo do tipo.

O inferno... Era só o que eu conhecia, via e vivia... Dentro de mim.

- Flávia?

Chamei bem alto, para que parassem de falar a meu respeito e eu pudesse entrar em segurança no recinto.

- Bom dia!

Flávia e Lena disseram juntinhas. Mônica olhou meio de lado para Lena e eu... Ignorei completamente o clima recém criado, falei com a maior empolgação que consegui:

- Bom dia! Já decidiram nossa programação?

Parecendo agradavelmente surpresa, Flávia respondeu:

- Praia, praia e mais praia?

E eu concordei:

- Perfeito!





Sentamos em frente ao bar da Lu e da Ive novamente. Tentei aparentar uma calma e uma indiferença que eu não tinha. Num misto de ansiedade, nervosismo e impaciência, meus olhos esquadrinhavam repetidamente a areia, em busca de... Não queria admitir, nem para mim mesma. Mas quando ela se aproximou, caminhando sinuosamente em minha direção com um enorme sorriso de orelha à orelha, acho que minha reação foi evidente. No entanto, ninguém disse nada. Nem mesmo Flávia. Formou-se um estranho silêncio... Quebrado por Sunny... De um jeito sussurrado que me arrepiou inteira:

- Oi...

Felizmente, todas responderam juntas:

- Oi!

Ninguém percebeu – acho – o quanto eu gaguejei:

- O... O... Oi...

Ela parou na minha frente e ficou me fitando... Sem que eu conseguisse desviar meu olhar do dela... Só percebi que Flávia estava em pé do meu lado quando a escutei falar:

- Pode fazer o tererê agora?

Sunny piscou, como se voltasse à realidade:

- Ãh?

Flávia nem tentou disfarçar o sorriso divertido:

- O tererê? Você disse que faz...

Sunny sorriu lindamente de volta... E só então desviou o olhar:

- Ah, sim. Faço. É em você?

Dessa vez o sorriso de Flávia foi pra mim:

- Na Camila.

Eu praticamente pulei:

- O quê?

Foi ela... A morena absolutamente irresistível... Que exterminou toda e qualquer possibilidade que eu pudesse ter de resistir:

- Vai ficar linda...





Como definir? A melhor de todas as torturas? O contato não tinha, pelo menos não deveria ter... Nada de sexual, mas... Exatamente como no passeio de moto da véspera, meu corpo correspondeu sem hesitar, como há muito não fazia... As mãos dela no meu cabelo... Tinham uma cadência que me deixou embriagada... E ao mesmo tempo... Pura adrenalina...

Seria perceptível? Tentei controlar a respiração, mas minha imobilidade me denunciava, a tentativa patética de controle parecia... Pior ainda.

No fundo eu sabia que era – tinha que ser – uma neura só minha. Lena e Mônica continuaram conversando com Flávia, ninguém estava olhando... A única exceção era ela. Manteve os olhos, a respiração e o sorriso em mim. Obviamente também podia sentir... O jeito que nossas peles pareciam se atrair como ímãs...

- Pronto! - Ela exclamou antes de me dar um pequeno espelhinho. Eu não me olhei, mirei o reflexo dela, que através do espelho me sorriu: - Gostou?

Balancei a cabeça afirmativamente, sabendo que nenhuma palavra sairia.

- Sunny!

Viramos juntas para o negro gigantesco atrás de nós. Ela se atirou e sumiu nos braços dele, que já estavam abertos exigindo o abraço apertado que presenciei, num misto de ciúme e curiosidade...

- Ah! Que bom te encontrar! Vai tocar?

- Com certeza! E se não fosse tocava, só porque você tá aqui!

Para minha surpresa, assim que saiu do abraço Sunny se virou para mim:

- Chocolate, essa é a Camila. Camila, o Chocolate é um grande amigo meu. Músico magnífico!

Ele estendeu uma mão enorme, que apertei enquanto dizia:

- Prazer!

E Chocolate, com um sorriso tão grande quanto ele respondeu:

- O prazer é todo meu! Amiga da Sunny é amiga minha!





Tudo bem, eu já tinha bebido. Todas nós tínhamos. E Chocolate realmente era exatamente como Sunny havia descrito: um músico magnífico. Munido apenas de um violão, um microfone e uma caixa amplificadora tocou músicas de todos os tipos e estilos. Todo mundo se animou e a areia se transformou em pista de dança, uma verdadeira festa. Quando dei por mim também estava dançando... Na frente dela, com ela, para ela... Que se movia de um jeito indescritível. Flávia se encarregou de não deixar minhas mãos vazias. Trocava as latinhas por cheias assim que eu as esvaziava. Perdi a conta de quantas virei sem sentir o gosto... O tempo se estendeu e dobrou... Até um ponto que pareceu inexistir... Passou... Tanto que o sol se foi e a luz começou a diminuir... Mas sequer tentei captar a beleza do pôr de sol, nem poderia... A morena insinuante na minha frente... Era a única coisa que eu via...

Então... Chocolate entrou rasgando com Bob Marley: “Is this Love?”. E sem parar de acompanhar o ritmo, Sunny se aproximou. Em nenhum momento me tocou, mas o calor entre nós quase me fazia acreditar que ela estava colada em mim. Eu simplesmente me deixei levar... Estava bom, muito bom... Não queria parar, pensar, muito menos me culpar... Próximas, muito próximas... Centímetros nos separavam... Ainda assim eu estava completamente despida de qualquer tipo de certeza... Um medo insólito surgiu: “E se eu estivesse imaginando coisas? E se fosse só mais uma loucura da minha cabeça?”

Ela sorriu... Meus olhos se fixaram na boca carnuda... Que se entreabriu... Para sussurrar como se pudesse ler meus pensamentos:

- Eu quero...

Antes de tomar meus lábios com os dela...





No início foi suave. De leve apenas. Como se ela soubesse, compreendesse, mostrasse... O quê? Não saberia dizer. Racionalizar tornou-se uma impossibilidade...

Fazia mais de dois anos que eu não permitia nem sentia vontade que alguém me tocasse. E pareceu incrivelmente certo que fosse eu a aprofundar o contato... Possuída por uma necessidade quase vital de prová-la... Investi com a língua... Ela abriu espaço... Consentindo e correspondendo sem a menor passividade...

Respirar se tornou cada vez mais difícil e ao mesmo tempo, facílimo. Como se ela... Me oferecesse o ar. O Universo, lindamente infinito, parecia estar contido naquele beijo... Inteiramente preenchido de tremores, suspiros, gemidos... Me fazendo desejar, precisar, me lançar em busca de mais...

E foi esse mais, exatamente esse mais, que me travou... Como uma onda arrebentando e varrendo por completo toda a areia da praia.

Ela me soltou imediatamente, assim que sentiu minha imobilidade. Manteve o olhar no meu enquanto eu me afastava. Um passo, dois, três... Para trás. Antes de me virar e sair quase correndo. Só parei na beira do mar, com os pés submersos na água gelada. Apesar de manter o rosto escondido nas mãos, pude sentir perfeitamente a presença de Flávia. Ela não disse nada, apenas ficou parada ao meu lado.

Uma única palavra surgiu, silenciosamente dentro de mim, como se me tomasse: “Sandra...”

Sem que eu já tivesse tanta certeza a quem aquele nome estava ligado... 




postado originalmente em 02 de Maio de 2013 às 18:16
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